A influência da família no supercontrole

Influências familiares e culturais que valorizam performance, grandes conquistas acima da conexão social acabam por exacerbar o supercontrole mal adaptativo. A valorização da alta performance ativa frequentemente a comparação social (inicialmente para confirmar se a nossa performance é ao menos adequada), fazendo da inveja uma provável consequência quando o resultado da comparação não for favorável para nós.

Valores familiares e culturais de alta performance pode reforçar noções, desde a infância, de que somos/seremos especiais, diferentes, superiores, comparados aos nossos colegas (por exemplo, mais inteligentes, mais responsáveis, mais esforçados, mais habilidosos).

Turkay (1985 apud Lynch, 2018) afirma que experiências precoces na infância que enfatizam a importância de ser especial, único ou fazer altas conquistas aumentam a probabilidade da criança sentir ansiedade social e se comportar de formas estranhas e “diferentes” comparado aos colegas menos ansiosos.

O tipo específico de transtorno que pode se desenvolver disso depende do comportamento que a criança adota para manejar a ansiedade. Por exemplo, as crianças pré-paranoides (transtorno de personalidade paranoide) adotam uma postura de se proteger e secretamente culpam os outros pelo seu isolamento.

Crianças pré-obsessivas compulsivas ou anoréxicas (transtorno de personalidade obsessivo-compulsiva) se tornam super-perfeccionistas e restritas para aumentar avaliações positivas dos outros. Crianças pré-evitativas (transtorno de personalidade evitativa) evitam contextos avaliativos (reduzem contato com outros e situações onde o julgamento é provável) e adotam uma maneira de agradar os outros.

As repetidas mensagens familiares e culturais de que erros são intoleráveis ou inaceitáveis podem comunicar para a criança que ela nunca é boa o suficiente (ela vai erra em algum momento, a vida é assim) e assim aumentar o desenvolvimento do perfeccionismo mal adaptativo.

Consequentemente, a criança aprende a evitar tomar riscos para prevenir a possibilidade de cometer um erro; ela se torna altamente sensível a perceber a crítica e considerar seu autovalor baseado em quão bem ela performa, comparado aos outros. Isso pode ser mascarado como forte independência, desprendimento, indiferença, tédio, determinação, distância ou comportamento pró-social exagerado.

Algumas pessoas supercontroladas afirmam que cresceram em um lar caótico ou dramático (como pais dependente químicos, mudanças geográficas ou mudanças na condição de vida, mudanças de cuidador). Também não é incomum para supercontrolados afirmarem que eles tomaram o pepel de cuidador dos irmãos ou pais desde cedo.

Mas o supercontrole também pode se desenvolver em famílias “saudáveis”. Pais positivos e calorosos podem, sem perceber, promover comportamentos supercontrolados em seus filhos. Pais super-protetores podem melhorar a sensibilidade da inibição comportamental em seus filhos ao ensinar que o mundo é um lugar perigoso a ser temido. Mesmo que não digam exatamente estas palavras, dizem “se proteja, tome cuidado” e a criança começa a se perguntar o que tem de perigoso no ambiente/situação.

Superproteção é acabar com as oportunidades da criança experimentar situações normais que provocam um pouco de ansiedade, e prevenir que tais situações se tornem um hábito (a criança só desenvolve habilidades sociais treinando repetidamente).

Fonte:
LYNCH, Thomas R. Radically open dialectical behavior therapy : theory and practice for treating disorders of overcontrol. 1ª ed. Oakland, CA: Context Press, 2018.

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